O que é um deus?

Como eram os deuses gregos? Neste episódio, você verá em que eles se distinguiam dos deuses das demais mitologias e, principalmente, o que eles tinham de diferente dos simples mortais como nós. 


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Estes são os materiais extras do nosso primeiro episódio:

  1. Trecho da Ilíada: Hera se prepara para seduzir Zeus
  2. Comentário do prof. Moreno: Ambrosia se bebe ou se come?
  3. Texto de Monteiro Lobato: Emília prova a ambrosia
  4. Crônica do prof. Moreno: O que os deuses nunca vão saber

1. Hera se prepara para seduzir Zeus

Quando Zeus ordena que todos os deuses se retirem do combate, os troianos crescem na batalha e encurralam os gregos junto à praia. Para salvá-los da derrota iminente, Hera resolve usar o seu poder de sedução: fechada em seus aposentos, ela se prepara meticulosamente para atrair o marido para o leito, sabendo que depois do amor ele certamente adormecerá e ela poderá intervir em favor de seus protegidos. Nesta cena, uma das mais célebres da Ilíada, podemos ver o quanto uma deusa e uma simples mortal, na concepção de Homero, eram em tudo semelhantes.

“Hera se dirige ao toucador que Hefesto, seu filho, construiu para ela, adaptando ao marco sólidas folhas de porta, munidas de uma fechadura secreta: nenhum deus, além dela, pode abri-la. Ali ela entra e se fecha por dentro. Hera passa ambrosia em todo o seu belo corpo, limpando-o de qualquer impureza. Em seguida, unta sua pele com um óleo suave, com um perfume feito especialmente para ela, e quando se move nas dependências do palácio de Zeus, de portas de bronze, um suave aroma se espalha pela terra e pelos céus. Depois ela penteia os cabelos e com as próprias mãos faz as tranças luzidias que pendem, belas e divinas, de sua fronte eterna.

Feito isso, veste uma túnica divina que a própria Atena teceu e cortou para ela, cheia de belos bordados e ornamentos, e a prende junto ao pescoço com um broche de ouro. Em torno dos quadris, coloca um cinto com centenas de franjas que se movem quando ela caminha; nas orelhas furadas ela põe seus belos brincos, com três pedras brilhantes do tamanho de amoras, que lhe dão um charme infinito; na cabeça, finalmente, a todo-poderosa coloca um véu belíssimo, novo, sem uso, imaculado como um sol. Nos elegantes pés, por fim, ela amarra delicadas sandálias, e assim, pronta e arrumada, sai do toucador e chama Afrodite à sua presença, para uma conversa reservada”.

Ilíada, XIV – 180-190


2. Ambrosia se bebe ou se come?

Veja como a tradição entendeu isso, e conheça outras utilidades para esta substância divina.


3. Emília prova a ambrosia

Quando os personagens do Sítio vão à Grécia Antiga em busca de Tia Nastácia, que fora sequestrada pelo Minotauro, o trio formado por Emília, Pedrinho e o Visconde chegam bem perto dos deuses do Olimpo, disfarçando-se de arbustos. Emília, então, sempre proativa, dá um jeito de realizar o sonho de todo o aficionado por mitologia: provar o néctar e a ambrosia.

Os “arbustos” tiveram a atenção atraída por um rapagote de grande beleza, mas que não dava a ideia de um deus. E não era. Era Ganimedes, o menino que Zeus raptou da terra para transformá-lo em garçom do Olimpo. Entrou com uma bandeja de ouro na qual se viam várias ânforas e taças.

— Chegou a hora! O garçom do Olimpo vai oferecer uma taça de néctar a Zeus!

Ao ouvir a palavra néctar, Emília ficou assanhadíssima, chegando a botar a cabeça fora da galharada. Pedrinho teve de pregar-lhe um beliscão.

— O néctar! O néctar! — repetia a diabinha. — Olhem o regalo de Zeus! Que delícia não deve ser o tal néctar…

Depois de servir a divina bebida, Ganimedes apresentou os pratos de ouro com ambrosia.

Segundo assanhamento da Emília e segundo beliscão de Pedrinho. Ela queria por força correr até lá, ver, pegar, cheirar — devorar o alimento dos deuses.

Concluída a sua olímpica refeição, o deus dos deuses mandou que Ganimedes servisse aos demais. Imediatamente Eros espichou a mãozinha e “pescou” uma dedada de ambrosia — e Emília, lá dentro da sua túnica de folhas, lambeu os beiços. Seus olhos seguiam Ganimedes.

— Quero ver para onde ele vai depois de servir a todos.

Ganimedes serviu a todos e retirou-se para certo ponto do Olimpo, onde uma nuvenzinha cor de madrepérola servia de copa.

— É lá a copa do Olimpo — sussurrou Emília. — É lá que guardam as ânforas de néctar e os pratos de ambrosia — e começou a arquitetar um plano. Assim que viesse a noite e os deuses ferrassem no sono, os três se aproximariam da nuvenzinha-copa e mandariam o Visconde furtar um pouco de néctar e de ambrosia.

O Visconde suspirou. Ele, sempre ele. Só se lembravam dele nos lances perigosos, ai, ai…

A impaciência de Emília aumentava, e por proposta sua foram se afastando dali a fim de escolherem posição mais estratégica.

O novo ponto em que se colocaram revelou-se ótimo. Permitia-lhes ver todo o interior da copa e localizar o deslumbrante móvel, todo de ouro, em que Ganimedes guardava as divinas substâncias.

— É a geladeira do Olimpo — disse Emília — e o garçom esqueceu-se de fechar a porta. Que bom…

Ah, como estava custando a anoitecer! A ex-boneca sapateava de impaciência. Punha os olhinhos no sol e dizia: “Mais depressa, Hélio. Deite-se hoje mais cedo.”

O sol, afinal, deitou-se na sua cama do horizonte. A Noite foi desenrolando por sobre o mundo as suas peças de crepe. Os deuses recolheram-se cada qual à sua nuvem. Entrou a reinar um silêncio verdadeiramente olímpico.

— É hora — murmurou Emília — e deu as últimas instruções ao Visconde, o qual as ouviu com o suspiro de sempre. “Agora desça a mala” — e depois que o Visconde arriou a maleta, Emília abriu e tirou de dentro um vidro e um pires.

— Para que isso? — perguntou Pedrinho.

— É boa! Para pegar o néctar e a ambrosia.

— Ah, linda…

— Claro. Costumo prever tudo. Se não fosse a minha idéia de trazer esse vasilhame, como iríamos nos arranjar agora? Quando penso num caso, penso direito, penso até o fim, sem esquecer coisíssima nenhuma. Tome, Visconde, este vidro e este pires; encha o vidro de néctar e ponha no pires um bom pedaço de ambrosia — um bom pedaço, veja lá! Faça isso e volte correndo, porque se o garção o pilha, faz como Juno fez para o Vulcaninho — arroja-o sobre a Ilha de Lemnos.

O Visconde tomou o vidro e o pires e lá se foi, pé ante pé, para a nuvem-copa. Diante da geladeira executou as ordens recebidas — néctar no vidrinho e um bom pedaço de ambrosia no pires. E, olhando para todos os lados voltou, no maior dos ressabiamentos.

Mal se reuniu aos companheiros, Emília quase lhe arrancou das mãos as duas preciosidades. Cheirou o vidrinho e provou o conteúdo na ponta do dedo.

— Ah, era o que eu pensava! Mel dos deuses — mas um mel mil vezes mais gostoso que o das abelhas. Não enjoa, não é doce demais. Prove, Pedrinho. Veja que suco…

Pedrinho provou o néctar e estalou a língua.

— Maravilhoso, Emília! Vale a pena ser deus só para chuchurrear este assombro de gostosura — e provou de novo, e daria conta do vidro inteiro, se Emília lho não arrancasse das mãos. “Isto vai para Narizinho. Vejamos agora a ambrosia.”

Tomou o pires, cheirou o alimento dos deuses, provou-o com a ponta da língua e fez cara de quem procura lembrar-se duma semelhança. Por fim exclamou:

— Curau de milho verde, Pedrinho! Curau do bom — mas muito melhor do que o de tia Nastácia. Prove…

Pedrinho tirou uma dedada e levou-a à boca. Seus olhos se arregalaram.

— Sim, curau, não há dúvida. Mas que curau, Emília! Gostosíssimo — e tirou outra dedada.

Emília puxou o pires para continuar no exame do creme divino. Pensou:

— Se é da família dos curaus, não vale a pena levar, porque azeda. Que pena! Narizinho vai morrer de desgosto…

E como não valia a pena levar porque azedava, resolveram comer toda a ambrosia ali mesmo. O Visconde lambeu o pires.

(Monteiro Lobato – O Minotauro)


4. O que os deuses nunca vão saber

Nesta crônica, o Professor Cláudio Moreno comenta a única coisa que os deus invejavam dos mortais.

Os deuses do Olimpo são quase iguais aos humanos. Em tudo são parecidos conosco. Como nós, eles também adoram reunir-se à volta de uma mesa para comer e beber com os amigos — não a carne, o pão e o vinho, rudes produtos da terra, mas a ambrosia e o néctar, alimentos divinos que o homem desconhece. A música também os encanta: vibram com a voz melodiosa das Musas e os sons  da lira de Apolo. Repousam como nós: a noite escura vai encontrá-los na paz de seu leito, e a Aurora dos dedos róseos faz romper a claridade da manhã para todos, deuses e homens, indistintamente. Quando choram, vertem lágrimas salgadas como as nossas; quando fazem amor, compartilham dos mesmos fluidos e das mesmas umidades.

Em contato com o ferro afiado, sua pele se rompe como a nossa, e a dor do ferimento é sentida com a mesma intensidade. Pois Homero não nos conta o quanto sofreu Afrodite ao ser ferida durante a guerra de Tróia? Para salvar Enéias, seu filho, que estava prestes a ser abatido pelos gregos, ela tinha se aventurado no ponto mais aceso do combate; furioso por ver sua presa escapar, Diomedes não hesitou em atingir o delicado pulso da deusa com um pontaço de lança, fazendo-a desferir um grito lancinante. Cega pela dor, Afrodite bateu em retirada; a pele alvíssima de seu braço começava a enegrecer em torno da chaga aberta, de onde jorrava não o sangue abundante dos mortais, mas o líquido claro e perfumado que corre nas veias dos deuses.

São quase idênticos a nós. Quase — não fossem duas diferenças essenciais. A primeira é sua perpétua juventude: eles nascem como qualquer um, crescem até uma determinada idade e estacionam ali, indefinidamente — Zeus será para sempre um homem adulto, na força da idade, enquanto Apolo nunca deixará de ser um jovem imberbe; no Olimpo, os dias não envelhecem. A segunda, muito mais decisiva, é a imortalidade, porque os deuses, “os que nasceram para sempre”, são eternos como o Tempo. No mundo divino, a morte é desconhecida.

Por causa disso, um pensador antigo sugeriu que é natural que os deuses tenham, a respeito da morte, uma grande curiosidade — talvez até uma ponta de inveja. Assim como água não tem muito sabor para quem não conhece a sede, assim os deuses, que não precisam morrer, não conseguem perceber o quanto a vida tem valor para quem sabe que vai perdê-la. Nenhum dos imortais do Olimpo pode entender a sabedoria das palavras de Bobbio, quando define nossa humana condição: os que levam a morte a sério levam também a vida a sério — aquela vida, a minha vida, a única que terei.

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